30/05/2005 10:06
E Fabiana decola
Azar do Borogodó. No início de maio, um interurbano do Rio de Janeiro para um celular de São Paulo virou uma página da vida de Fabiana Cozza, de 29 anos, e encerrou seus tempos de cantar em bares, como o delicioso Ó do Borogodó, nos fundos de um cemitério da boêmia Vila Madalena. José Mauricio Machline - ''o próprio Machline'', como ela não parou de repetir - ligou para falar de sua indicação para os prêmios TIM 2005 de Artista Revelação e Melhor Cantora de Samba.
A indicação já muda o patamar da artista. Mas demorou, no caso da intérprete volta e meia comparada a Elizeth Cardoso, Clara Nunes e outras deusas do olimpo musical nativo. ''Uma das melhores cantoras que já ouvi'', arrisca Paulo Moura, um dos melhores sopros que Pindorama já ouviu. ''A melhor intérprete brasileira da atualidade'', disse Ivan Lins à saída de um show dela.
A filha mais velha de Oswaldo Santos, puxador até 1986 da escola de samba paulistana Camisa Verde e Branco, adolesceu ouvindo com ele as musas da MPB e do jazz na casa da avó materna, na própria Vila Madalena.
''Fabiana tem berço, pai músico, mas não ficou nisso'', diz o ator, teatrólogo e secretário nacional da Cultura, Sérgio Mamberti. É. Aos 20 anos, em 1996, parou de imitar Alcione e entrou para a Universidade Livre de Música Tom Jobim e para o grupo vocal de Jane Duboc. Em 1997, ao cantar e encantar a platéia num bar da Vila, o Feitiço de Áquila, foi convidada pelo compositor Eduardo Gudim. E gravou, com Ivan Lins, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, o CD Pra Tirar o Chapéu.
A ajuda das teatrólogas Júlia Pascale e Wilma de Souza aprimorou sua presença cênica em No Reino das Águas Claras, no Teatro Imprensa, em 1999, e, em 2001, em Os Lusíadas, dirigida por Iacov Hillel, e em A Luta Secreta de Maria da Encarnação, de Gianfrancesco Guarnieri, no Teatro Sérgio Cardoso.
Em 2002, dividiu o palco do Sesc Ipiranga com Marília Medalha em Rainha Quelé - Tributo a Clementina de Jesus. Mais que os aplausos, arrepiou-a o vaticínio de Marília: ''O espaço deixado por Elis Regina continua vago. E pode ser seu''. Marília ainda acha isso - ou não a teria convidado para, com ela e dona Inah, o percussionista Douglas Alonso e o sete cordas Zé Barbeiro, levarem Rainha Quelé a Amsterdã, na Holanda, neste setembro.
''A melhor intérprete brasileira da atualidade'',
disse Ivan Lins
Em 2003, Fabiana repartiu com Suzana Salles o show em homenagem a Clara Nunes e, com Edson Montenegro, o do centenário de Ary Barroso, ambos no Sesc. No Festival Sete Cordas do Banco do Brasil, foi comparada a Elizeth. Por Luís Nassif na Folha de S. Paulo. ''A experiência de teatro a dotou de um domínio de palco que parece mesclar a majestade de Mônica Salmaso com o balanço de Virginia Rosa.''
Arthur Dapieve, após ouvi-la no Rio, concluiu sua crônica em O Globo com o verso de Walt Whitman: ''E a vida fez sentido até o dia seguinte''. Em 2004, ela repartiu com Maria Alcina a homenagem do Sesc a Lamartine Babo. Francis Hime a ouviu e, cativado pela ''cantora maravilhosa, presença de palco estupenda e pessoa adorável'', convidou-a para cantar em seu show.
Outro que a adora é Ronnie Von. ''Neste país, quem faz sucesso é a bailarina do conjunto. Uma parte do corpo da bailarina. Fabiana prova ser possível o sucesso sem apelação. Só repertório, boa voz, afinação, talento...''
A indicação para os prêmios TIM facilita a vida do empresário e produtor de Fabiana, Ricardo Frugoli. Afinal, ele e ela levaram quase uma década para lançar o primeiro CD, O Samba É Meu Dom. Puxado de um samba de Wilson das Neves, o título engana. Leva o freguês a achar que ela é só sambista. Como Elis, Elizeth ou Clara Nunes, é mais: ''...emoção densa, contida, sem dramas ou arrebatamentos, encharca cada palavra com vivências - que, como as do poeta, não precisa ter vivido'', escreveu Paulo Roberto Pires no site No Mínimo.
Se tamanha declaração de amor não bastou, a indicação para os prêmios TIM pode abrir os olhos das gravadoras para Fabiana Cozza. E será bom ver andar a fila de artistas geniais deixada por elas no sereno - para sorte dos bancos de reserva, como o Ó do Borogodó.
Matéria do site Época:
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0%2C%2CEPT968525-1661%2C00.html
enviada por Palha
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